A gente se acostuma.
A gente se acostuma com tanta coisa, que não deveríamos nos acostumar.
A gente se acostuma a ser ignorado quando precisava ser visto. A dizer bom dia, boa tarde ou boa noite, e não receber uma resposta de volta.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais.
A gente se acostuma com a violência alheia, com a criminalidade e a impunidade. A trabalhar em empregos que odiamos para comprar coisas que não precisamos.
A gente se acostuma a ficar acostumado. A tomar café correndo porque está atrasado para trabalhar. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma com noites mal dormidas. A não se importar se faz calor, frio ou se o canarinho assobia.
A gente se acostuma com a poluição, com o barulho, a fumaça, os ratos que se esgueiram pela calçada. A ter uma vida cinzenta e violenta.
A gente se acostuma com esse rumo extenuante que nossas vidas tomaram. A não revidar. A não escancarar as portas da vida.
A gente se acostuma.
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